Das artes plásticas ao cinema, Ana Cañas revela seu imaginário artístico

Foto: dilvulgação

Após um hiato Ana Cañas retorna à cena musical com um repertório que vai de Chico Buarque a Nirvana, passando por Caetano Veloso, Edith Piaf e Cazuza, além das próprias composições. A cantora lançou recentemente seu primeiro DVD, intitulado Coração Inevitável que tem direção e iluminação de Ney Matagrosso.

No último final de semana Ana Cañas se apresentou no Teatro do SESI, na cidade de Piracicaba, interior de São Paulo. Com perfeita afinação, Ana abriu o show com Urubu Rei e arrancou da plateia palmas efusivas.

O público muito heterogêneo tentava entender e se encontrar dentro do espetáculo, dentro da entrega que Ana Cañas dedicava a cada um daquele teatro e foi assim durante as quase duas horas de show.

O destaque ficou por conta do Blues da Piedade além da interpretação que fez para Retrato em Branco e Preto, fazendo o público aplaudir em pé.

Tem sido realmente um retorno para Ana Cañas que passou por um período conturbado em sua carreira. Em entrevista realizada via email a artista comenta como foi para ela esse período em que optou pelo refugio, além de suas influências e a sua relação com a arte.

Confira abaixo a entrevista na íntegra:

Como foi o início da carreira para você? Quando lançou Amor e Caos você já havia tido contato com o Nando Reis ou foi a partir do álbum que tudo começou para você na cena musical?

Ana Cañas:  Olá. Bem, tudo começou no ano de 2003, quando tomei uma resolução pessoal, interior e espiritual que seguiria os passos da minha vida através da música. Cantei em muitos bares e hotéis, na verdade, em qualquer lugar em SP que contratasse uma menina que gostava de cantar as músicas de Billie Holiday e Ella Fitzgerald. Devo dizer que este caminho não foi nada fácil e talvez, por isso mesmo, extremamente gratificante. Cada ouvinte conquistado, cada canal atento era uma certeza metafísica de que eu realmente poderia fazer aquilo e lidar com aquelas emoções, aquelas letras. Lancei “Amor e Caos” somente em 2007 – um disco de composições próprias e ainda imaturas – na minha opinião pessoal e sincera. Apesar de gostar muito da sonoridade deste disco, continuo achando sua poética subjetiva muito superficial. O Nando eu conheci em 2008, ensaiando para um evento em São Paulo que acabou não acontecendo. Imediatamente, nos conectamos, nos tornamos amigos e aproximamos artisticamente.

Você teve apoio dos familiares? Como é a sua relação com eles?

Meu pai faleceu antes que lançasse o primeiro disco, mas chegou a ver algumas apresentações e gostava muito que eu cantasse. Se preocupava com as incertezas da profissão, mas me dava seu carinho e suporte emocional sempre que podia. Minha mãe, a mesma coisa. Não deve ser fácil para um pai ver sua filha estudar Artes Cênicas e tornar-se cantora num país como o Brasil, onde se apoia e valoriza tão pouco a arte e a cultura.

Você já comentou em algumas entrevistas que seu pai era um “figurão, uma pessoa muito louca”. Como era sua relação com ele?

Era maravilhosa. Nós não tínhamos muito diálogo, muita conversa. Mas eu sentia o seu amor no seu olhar, no seu silêncio. Ele era alcoólatra, e eu e meus irmãos lidamos com isso de forma dolorosa, mas com muito amor. Sabíamos que ele era uma pessoa especial, de um inteligência e sensibilidade extremas. Era pessoa incrível, mas que sofria de uma doença, de uma dependência física e psicológica de uma droga perigosa que é comercializada livremente neste país.

Em 2010 você passou com um período conturbado em sua carreira, período em que começou a consumir bebida alcoólica em grande quantidade. O fato de você se refugiar em um sítio no Rio de Janeiro tempos depois, como uma forma de se reencontrar, tem um elo com a história de vida do seu pai?

Com certeza. Eu não costumava beber até os meus 26, 27 anos. A partir dali, com a morte dele, comecei a ingerir bebida alcoólica na ânsia de entender, através da experiência vivida-vívida, o que era embriagar-se, perder a consciência. E isso acabou chegando aos palcos, infelizmente. Foi muito constrangedor e triste, mas ao mesmo tempo, quando olho pra trás, entendo que foi um momento de exorcizar a dor, a saudade e a tristeza de ter perdido meu pai da maneira que perdi. Foi o jeito que tive para lidar com aqueles sentimentos. Foi um grande aprendizado, embora tenha pagado um preço alto, pois fiquei bastante perdida em relação a minha música e a minha essência, aos meus valores. O público se distanciou, naturalmente. O isolamento teve a ver com isso, com esse momento de resgate, de paz, de procurar responder para mim mesma quem eu era e o que devia fazer dali pra frente. Foi um recomeço. Um momento de muita reflexão e mudanças profundas.

 Quando se refugiou em Vargem Grande levou alguém com você? Ou passou um tempo inteiramente sozinha?

Levei meus dois companheiros e fiéis escudeiros, grandes amigos e músicos, o Fábio Sá e o Fabá Jimenez, e também meu marido na época, que foi uma pessoa maravilhosa neste momento ao me apoiar integralmente, entender e cuidar deste silêncio que se fazia necessário. Sou muito grata à eles e ao amigo que nos recebeu de peito aberto em sua linda casa, o Aurélio Kauffmann.

Seu contato com o Ney Matogrosso ocorreu no período que estava no sítio?

Sim. Na verdade, foi o Ney que me deu um toque pessoalmente em relação a bebida. Foi ele que “puxou a minha orelha com carinho”.  Me disse que seria uma besteira muito grande “desprezar todo o meu talento por bebida ou coisa parecida”. Então fiquei pensando dias e dias, semanas e semanas, naquelas palavras. Afinal de contas, era um ídolo me dizendo aquilo. Foi chocante ouvir isso dele, mas foi a partir dali que comecei a me afastar desta atitude autodestrutiva. Foi muito importante aquele toque, naquele momento, dado daquela maneira. Ney é uma pessoa incrível. Não só o artista, mas o ser humano, a alma, o espírito dele. A integridade e a generosidade fazem com que ele seja quem é, na sua totalidade magistral.

O que o Ney Matogrosso representa para você? Tanto na obra artística da Ana Cañas, quanto no sentido pessoal?

Ele representa a entrega, o talento, a dedicação, a sabedoria, o amor, o respeito, a dignidade, a luta, a batalha, a intuição, a genialidade. Ele é um raio de luz e força neste planeta, definitivamente. Encarnou aqui porque quis, para compartilhar sua alma através de arte e do brilhante ofício que é interpretar canções e comover a todos com elas. Um exercício pleno de amor e consciência de que somos unidos por um único sentimento – ultimamente bastante esquecido – de união, de que somos a mesma alma-lama partida em milhões, mas conectadas a uma fonte suprema de amor incondicional. O Ney, pra mim, é isso. O reflexo puro dessa fonte existencial e maior.

O percalço que passou fez você atingir uma plenitude artística?

Talvez. Não sei se atingi realmente a “plenitude”, mas com certeza estou muito mais focada e concentrada no que é realmente importante para a minha vida e para a minha felicidade. E isso é simples. São coisas simples que me fazem feliz, que me dão alegria e prazer de viver a vida plenamente. Mas, ao mesmo tempo, é preciso entender o que são essas coisas e mantê-las num fluxo cotidiano, protegendo aquilo que lhe traz amor e paz. E isso se reflete no seu trabalho, na sua arte e nas pessoas a sua volta. Hoje me sinto plena, realmente. Estou feliz pelas conquistas e perspectivas que a música me dá diariamente.

O que é plenitude artística para você?

É encontrar a fonte. É conhecer-se, sem saber-se integralmente. Porque um certo mistério eterno faz parte do que somos. Não podemos desvendar por completo tudo. Mas conectar-se ao que nos emociona, ao que nos realiza e poder projetar no seu discurso e na sua poética as verdadeiras crenças e valores adquiridos e alcançados através de um vida vivida com amor, através de seus erros e acertos, para mim, é plenitude. É sabedoria adquirida, esforço e reflexão.

 Como é sua relação com o cinema? De que forma ele te impacta? 

O cinema junto com a música e a literatura, é uma paixão intensa e profunda na minha vida. Pasolini, Eisenstein, Bresson (ah! Pickpocket), Jean Vigo (ah! L’Atalante + Conduite), Dreyer (ah! Joanna D’arc), Truffaut (ah! Os Incompreendidos), De Sica, Kurosawa, Rossellini, Polanski, Coppola, Fellini, Bertolucci e tantos outros. São tantos-gênios-tantos que o nosso coração que supõe-se largo, fica pequeno. Mas confesso que, entre meus favoritos, estão Agnès Varda (minha vida se resume ao antes e depois de “Sem Teto, Sem Lei”), Godard (todo e qualquer filme dele), Buñuel (“A Idade do Ouro” é simplesmente colossal – e pensar que Dalí abandonou esse filme!).

Mas o grande amor da minha vida mesmo-mesmo é o Bergman. Ainda fico perplexa diante de seus textos. Falas. Diálogos. Logos. Phatos. Dellirium. Narrativa. Subtextos. Rubricas. Direcionamentos. Apontamentos. Sua fotografia. Sua perspectiva. Sua composição. Sua densidade. Como pôde um homem conhecer tão profundamente a alma feminina? Como pôde uma alma-homem ter desvendado e despedaçado o que somos assim, com tamanha intimidade? O abismo eterno, o cosmos flutuante e dilacerado da almagêmea-almafêmea? O dilacerar das nunvens e o ácido das rosas flutuantes. Somos mesmo todas ‘Ophélias’? Notável-imensa Liv Ullmann – conhecida como o “Stradivarius” do mister – é tão genial ao deixar-se capturar pelo olhar de um cineasta arrebatadoramente apaixonado. Desvenda sua alma e que agora é possuidor daquela beleza tão subjetiva e tão tátil.

Vale a pena viver não? É isso que esses filmes – e a mente-coração-espírito por trás destas obras geniais – me dizem.
Ah! o cinema. tão complexo, tão subjetivo. Tão mortal que nos faz renascer. Tão imortal que nos mata.

Por que na produção do álbum Volta você optou por uma ruptura com as gravações que havia feito anteriormente. De que forma se deu tal quebra?

Porque estava muito chato gravar tudo separadamente, não soava orgânico, nem natural, pra mim. Não dava mais tesão. Então comecei a gravar ao vivo, como se estivesse num show, tocando ao vivo. E isso era instigante. Eu sou uma “cantora-banda”. Tenho carreira solo, mas penso e sinto como se estivesse numa banda, tendo prazer de fazer a coisa rolar junto, com eles. E fazer isso era parte do “reconectar-se com a fonte” ou “buscar as respostas que me levavam à essência perdida”. Fez parte do processo, foi muito necessário e importante.

No show de Volta é possível notar uma entrega total sua semelhante à entrega de cantoras como Elis Regina no álbum Falso Brilhante e Gal Costa no disco Fatal – Gal a Todo Vapor. Como é trabalhar a emoção entre esses dois extremos? De Diabo a interpretação de Retrato em Branco e Preto?

É fascinante saber que através de uma canção, um intérprete pode dizer tudo que sente em relação à vida e à todas as coisas. Eu sinto isso cantando certas canções. E não vejo um outro caminho para alcançar o coração do público e das pessoas que não seja esse, o da entrega total. O desnudar-se, dar-se por completo. É um pacto, uma comunhão. Porque se você parar pra pensar, e imaginar que aquelas pessoas – o público – saíram de suas casas e compraram um ingresso apenas para te prestigiar e te ver cantar ao vivo, o mínimo que posso fazer é devolver em energia, amor e gratidão, sendo sincera e honesta de forma absoluta com minhas possíveis interpretações.

Descobriu-se como cantora após ter ouvido Ella Fitzgerald. Já gravou Edith Piaf, canta Retrato em Branco e Preto canção do Chico Buarque que ganhou grande destaque na voz de Elis. Já revelou sua grande admiração pela Gal Costa. Como é a sua relação com as vozes femininas? O que elas representam pra você?

Elas representam tudo isso que te falei na pergunta acima. Elas entenderam isso e fizeram disso a sua vida. Elas entregam, vivem a coisa toda de verdade. Não tem mentira ali, nem brincadeira. Não tem meio-termo. É tudo ou nada, o agora infinito. É coisa séria. É amor imenso, loucura e um equilibrar-se nessa loucura. Extrair dessa loucura a beleza, a alma, o sentido da vida. É bicho, é ser mãe, é ventre, buceta. É dionísio beijando apolo. É abismo eterno, o sorriso na face oculta do medo. O deixar-se, deixar-ser. Se permitir e se jogar nos braços do desconhecido de olhos vendados. É tudo e depois, o resto.

No seu show você trata bastante o tema “ser mulher”. Seja para dizer que a canção Traidor é para um ex-namorado, seja lendo um poema que escreveu: “me chama de louca, mas não vê eu faço amor com as estrelas, eu só quero o que me cabe (…)”. Como você enxerga atualmente a questão dos gêneros?

Os gêneros e suas diferenças e similaridades me fascinam, sempre me fascinaram. Tanto na sua integração, envolvimento, quanto nos seus paradoxos e contrassensos naturais. É terra. É o que é. É o que somos, como somos. A força bruta da raiz. Da natureza.  Ao mesmo tempo, somos um cada um. Somos únicos, totalmente únicos. Sete bilhões e únicos. Interagindo, sofrendo, amando, vivendo, desejando, trocando, construindo, destruindo. Enfim, sou a favor da liberdade total e plena do ser, da alma, do sexo, da sexualidade, do amor, do beijo, da ternura, do carinho. Das almas. Alma não tem cor, alma não tem sexo. Alma é essência. É o que vibra na fonte e nos conecta ao cosmos. Que cada um encontre o seu caminho e seja feliz, que se realize plenamente, do jeito que sente, do jeito que deseja! Acho muito careta, muito pobre e muito triste como o preconceito ainda vinga, ainda opera nos raciocínios, nos corações. Nascemos para nos realizarmos, sermos felizes. E nos aceitarmos como somos.

Como é o processo de escolha de repertório?

É um gesto de amor e visceralidade. É aquilo que te pega, que te puxa as entranhas, definitivamente. É a palavra que te move, te desloca da realidade banal. São os compositores que disseram o que ninguém disse, que ousaram e estiveram, muitas vezes, à frente do seu tempo quase sempre. O Ney me diz: o que você gostaria de cantar, além de suas músicas, no show? E eu respondi rapidamente, sem pestanejar: “Escândalo”, “Blues da Piedade” e “Retrato em Branco e Preto”.

Logo depois do lançamento de Amor e Caos, você disse em uma entrevista que naquele momento uma das suas maiores influências era Cat Power. Atualmente, após o lançamento do seu primeiro DVD Coração Inevitável quais músicos que têm dialogado contigo?

Nina Simone, Billie Holiday, Stones, Gal 70, John Coltrane, Rita Lee. Contemporâneas: Fiona Apple e Sky Ferreira.

O que você destaca do DVD Coração Inevitável e do álbum Volta?

A sinceridade e a busca impossível e eterna de tentar saber-se, conseguindo co-fundir-se.

Como é sua relação com os fãs?

Maravilhosa! Posso sentir o seu amor, o seu carinho, a sua fidelidade – no sentido do companheirismo, do estar junto e se fazer presente. Sem ele, nada vale, nada existe. É uma troca que dá sentido à tudo. O encontro com ele é o momento ápice, tudo se esclarece e os votos se renovam.

Como é Ana Cañas fora dos palcos, no dia a dia?

Louca, tranquila, desbocada, serena, pensante-fritada, triste, melancólica e a pessoa mais feliz da galáxia.

Um beijo.

Ana

55 anos da Nouvelle Vague é tema de exposição no MIS

Foto: divulgação

 Em comemoração aos 55 anos da Nouvelle Vague, o MIS – Museu da Imagem e Som de São Paulo – exibe a mostra “55 anos de Nouvelle Vague“. A exposição, que tem duração do dia 3 ao dia 8 de setembro, conta com trabalhos dos cinco principais expoentes do movimento francês (Godard, Truffaut, Rohmer, Chabrol e Rivette), e algumas obras de cineastas fortemente associados à ela, como “O Ano Passado em Marienbad” de Alain Resnais, “Cléo das 5 às 7” de Agnes Varda e “Trinta Anos Essa Noite” de Louis Malle.

Os filmes serão exibidos no formato 35mm, ou seja, no formato original de cinema, sem reprodução digital. Além disso, o crítico Luiz Carlos Merten estará presente no dia 5 de setembro ao lado da pesquisadora Laura Carvalho para um debate sobre o movimento.

A Nouvelle Vague foi um movimento cinematográfico que surgiu na França no fim dos anos cinquenta e tem como destaque artistas herdeiros de uma tradição de críticas cinematográficas encabeçadas por André Bazin.

Nos filmes da Nouvelle Vague está incutida a noção forte da “política de autores”, teoria cinematográfica elaborada por Bazin e cia. que acreditava no cineasta como detentor de todo o processo do fazer cinema (o metteur-en-scène). No entanto, seus ancestrais comuns de cinefilia e parceria crítica resultariam filmes muito distintos entre si.

Foto: divulgação

Enquanto Godard já dava sinais de sua tendência política (que viria a ser desenvolvida de maneira mais enfática nos anos 70), Truffaut se preocupava com um cinema mais autobiográfico e literário. Rohmer, por sua vez, enxergava o cinema como um meio para o entendimento da natureza humana e da moral, carregando a sua obra de símbolos do cotidiano e do lugar comum que a tornam quase naturalista e realista.

A curadora da mostra, Alessandra Dorgan, argumenta que a importância de se ter uma exibição como essa é a oportunidade que a população tem para ver e rever filmes importantes da história do cinema, além de poder contar com a exibição do filme em película que proporciona uma experiência mais completa com a obra.

Quando questionado sobre a recepção do público, Alessandra é enfática ao dizer: “Minha expectativa era de cinéfila apaixonada pela Nouvelle Vague, mas em vista do retorno e agitação na mídia social nos últimos dias com a chegada da notícia da mostra, estou bem otimista com o número de público, concretamente falando”.

Confira abaixo o trailer do filme “Os Incompreendidos”, de François Truffaut, de 1959.

Para conferir a programação completa da mostra, clique aqui.

Entrevista:

O crítico de cinema Bernardo Brum, do portal Cineplayers e do blog Cine Cafe, explica um pouco a relevância do movimento na cultura pop e no desenvolvimento do cinema contemporâneo.

Como você enxerga a Nouvelle Vague enquanto crítico de cinema e enquanto cineasta (falando em aspectos distintos do Bernardo como pessoa). No que ela te influencia enquanto crítico e no que influencia enquanto cineasta? Divergem bastante?

Acho que é difícil responder isso enquanto cineasta, já que cada diretor tinha sua premissa partindo de um acordo comum, que a gente tem que reconhecer enquanto crítico: a de levar o nome do diretor como principal nome em um filme, e os filmes como partes integrantes de uma “obra” continuada. Hoje é difícil um diretor de cinema, tanto das grandes indústrias quanto os mais artesanais, não pensarem assim; apesar dos esforços contrários, a tendência é que o cinema fique, cada vez mais, uma expressão subjetiva, seja o tailandês “Tio Boonmee” ou o novo “Muito Barulho Por Nada”, adaptação shakespereana do diretor de Vingadores: são reflexos de mentes criativas e não de pesquisa, publicidade, etc.  Portanto, como crítico, avalio cada diretor e roteirista como artista; assim como Dostoievski era o artista dos excessivos e dos desesperados, Scorsese é o diretor da ethos cristã em eterno contraste com a pathos urbana, por aí vai. Enquanto diretor, enxergo igualmente a necessidade de erguer o meu cinema, a minha expressão pessoal.

Quais cineastas você apontaria que são herdeiros diretos dessa escola francesa?

Diria que os mais próximos disso hoje em dia, bem sucedidos no seu intuito, são diretores como Michael Haneke, Quentin Tarantino e Pedro Almodóvar. O pensamento deles de construir cinema tem uma influência clara, mesmo não sendo a única referência no trabalho de cada um.

A Nouvelle Vague foi um movimento fortemente ligado à cultura pop da época, como o imaginário francês da revista Vogue e do cantor Serge Gainsbourg. O quanto esse imaginário influenciou na obra de alguns cineastas e o quanto eles foram criadores de tendência?

Acredito que isso aconteça porque a nouvelle vague trouxe à tona uma tentativa de eliminar conceitos como alta cultura e baixa cultura: tanto faz se é um filme b de gângster ou E o vento Levou, é seu dever julga-los no mesmo patamar de seriedade, e cada um pelo que representam; cada um é uma visão de mundo. Dessa forma, a própria nouvelle vague tinha diretoresm uito variados entre si, que se utilizavam da música e da moda da época de forma “sincrética”: os filmes da primeira fase do Godard, por exemplo, eram tão existencialistas e complexos quanto pop e simples, porque o imaginário não é uma coisa ou outra, mas várias. O Gainsbourg, como gostava dessas contradições (sexo e tabu, música pop e chanson, cultura ocidental e jazz e vodu e reggae) caiu como uma luva nessa geração que experimentou tudo em matéria de sincretismo.

Mesmo passado 55 anos do surgimento da Nouvelle Vague o quão atual o movimento ainda é?

Não há como mensurar, ao lado do neo-realismo e de Cidadão Kane, a importância exata da nouvelle vague. Sem esses movimentos, talvez o cinema ainda fosse considerado menor, os diretores não fossem considerados artistas, a expressão subjetiva fosse preterida para favorecer uma indústria despersonalizada. Eles que revogaram o cinema como arte auto-suficiente, ainda que sincrética de todas as outras, e aqueles que a executam como artesãos e não como funcionários.

Gal Costa encerra Virada em Jundiaí e emociona público com sua nova turnê

A medida que o relógio ia se aproximando das seis e meia da noite o Parque da Uva, cidade de Jundiaí, ia se enchendo de pessoas que queriam prestigiar a cantora Gal Costa. Entre comentários e outros nas rodas de conversa o público manifestava as músicas que queriam ouvir. Mariana revela: “Espero que ela cante Divino Maravilhoso. Enquanto sua amiga Sara aguardava ansiosamente na esperança que Gal cantasse Vaca Profana.

Passado das sete horas da noite Gal Costa e banda sobem ao palco. No início a plateia tem um certo estranhamento pelo fato da Gal começar o show sentada em um banquinho, fazendo poucos movimentos corporais. Nos burburinhos era possível ouvir certos comentários.

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João indaga: “Será que ela está com a coluna travada?”. Enquanto Ana rebate: “Ela fez show de madrugada em São João da Boa Vista, pela Virada também, deve estar sem dormir direito”.

O fato é que Recanto, novo álbum da artista, possui canções mais intimistas, por isso o início da apresentação se dá com ela no banquinho em uma performance concentrada e com a afinação a mil. “Digno de Gal, eu diria”, afirma Antônio, que conta ainda que no show dela que ele assistiu na Virada de São Paulo a cantora realizou o mesmo espetáculo.

Após apresentar canções como Da Maior Importância, Tudo Dói e Recanto Escuro Gal levanta de seu banco dançando na leveda da guitarra de Pedro Baby que tocava a introdução de Divino Maravilhoso. Meio sem entender que música se referia aquela introdução, já que Divino Maravilhoso ganhou outros acordes na turnê do Recanto, o público seguia a Gal e deixava o som dominar o corpo dançando junto com cada batida da introdução.

Assim que Gal gritou “atenção” o público foi ao delírio e começou a cantar junto “tudo é perigoso, tudo é divino maravilhoso, atenção para o refrão”. Composta por Caetano Veloso e Gilberto Gil Divino Maravilhoso foi uma música criada no final dos anos sessenta para aquele Brasil da Bossa Nova que não se encontrava nos solos de guitarra mas ficou estarrecido quando se deparou com o Tropicalismo de Gil, Caetano, Nara, Os Mutantes e Gal. Brasil de 68 com ditadura, repressão e o refrão da canção que traduzia isso tudo: “É preciso estar atento e forte não temos tempo de temer a morte”.

No entanto, a realidade hoje é outra. Não há ditadura, mas existem muitas heranças deixadas por ela, como a desigualdade social. Neguinho cantada por Gal revela bem esse retrato da sociedade. “Neguinho compra 3 TVs de plasma, um carro GPS e acha que é feliz, neguinho também só quer saber de filme em shopping, rei, rei, neguinho rei”.

O público pôde ouvir também canções como Um dia de Domingo música consagrada na voz de Gal e do Tim Maia em um dueto memorável. Como Tim Maia já está em outra dimensão Gal teve o carinho de cantar a parte dele com um grave excepcional, daqueles que só Tim poderia alcançar.

“A música Baby sempre me emociona, mas a interpretação que a Gal fez na Virada de São Paulo me renderam algumas lágrimas”, recorda Antônio. “Principalmente na parte em que ela cantou ‘vivemos na melhor cidade da América do Sul, da América do Sul, você precisa’ e apontava para o público, para a praça, para São Paulo”.

Próximo do fim do show, enquanto a plateia pedia para a Gal olhar a lua cheia que Jundiaí havia preparado para ela, a cantora dá o sinal e uma batida funk se faz presente no Parque da Uva. Gal até tentou uma rebolada e uma descida até o chão enquanto cantava “Mas por quê, mas por quê, por que eu fui meter você, no meu som, no meu bom” e o público dançava ao som de Miami Maculelê.

No bis Gal emocionou todos os presentes cantando Força Estranha e encerrou a festa com Modinha para Gabriela, música da minissérie da Rede Globo, sendo cantada em uníssono pelo público jundiaiense.

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A saga de uma repórter em busca de Tulipa Ruiz

Havia garotos andando com seus skates no meio da praça onde o pessoal passava para se aproximar do palco, logo começaria o show da Tulipa Ruiz, às 23h. Havia moradores de rua tentando entender o que estava acontecendo por ali. Outro grupo em roda bebendo e celebrando a vida. Um indivíduo, vestido todo de verde, intacto na grama, carregando a seguinte placa nas costas: “Ajude o Planeta a respirar, plante uma árvore”. Era o encontro da parte alta da sociedade com a camada muitas vezes esquecida. Ali, não havia diferença social, todos estavam na frente do palco aguardando ansiosamente a mesma artista.

Cheguei ao local quinze minutos antes do horário marcado para começar o show, a artista iria conversar com a imprensa antes da apresentação. Isso quer dizer que a repórter que vos fala deveria ter chegado ao lugar com no mínimo trinta minutos de antecedência, para ter tempo de entrevistar a artista sem qualquer pressão.

Foto: dilvugação

Encontrei o local de imprensa, entrei efusiva e perguntei para a primeira roda que vi, aonde era o camarim da cantora e se ainda poderia realizar a entrevista. Riram entre si e me conduziram até o camarim. A cantora havia acabado de conceder entrevista para a imprensa. Perguntei num tom de última esperança se poderia conversar com ela, um bate papo rápido. Muito simpática, me recebeu com a informação de que não poderia demorar, afinal, em poucos minutos entraria no palco.

A conversa era como aquelas conversas de boteco entre uma birita e outra, quando o diálogo se faz sincero entre as duas partes. Quando não há pressão de conseguir nenhum furo e por consequência nenhuma tensão em errar ou ser mal entendido por alguma frase. Apenas um diálogo entre duas pessoas que acabaram de se conhecer, mas conversaram como se conhecessem há algum tempo.

Tulipa explica que ser uma artista atualmente foi uma consequência prazerosa de sua vida, não algo que ela buscou. O fato do pai, Luiz Chagas, ser jornalista e ter sido guitarrista da histórica banda Isca de Polícia de Itamar Assumpção fez com que Tulipa desde sempre tivesse muita ligação com a música o que acabou consolidando em 2010 com o álbum Efêmera.

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Ser uma cantora com agenda sempre cheia não fez com que ela largasse seu prazer por artes plásticas. Além de criações próprias trabalha para Le Monde Diplomatique Brasil desenvolvendo sua habilidade com desenhos.

Quando questionado sobre ser comparada a Gal Costa ela abre o sorriso “é uma grande honra ser comparada com a cantora que para mim é uma das melhores vozes que esse país já ouviu”.

Finalizo a entrevista, agradeço a atenção e saio do camarim. Indo em direção ao palco para tirar fotos da plateia noto que a roda de pessoas que havia encontrado no início ainda estava lá, olho bem e percebo que se trata da banda de apoio da Tulipa, a banda que a pressa não me deixou reconhecer. Cumprimentei-os como um ato de agradecimento e fui retribuída com o mesmo carinho.

Tulipa começa o show com É single do seu novo cd Tudo Tanto, a plateia aplaude e canta empolgada. Diversificando entre músicas do primeiro e do último álbum a cantora agrada e encanta a plateia com desenvoltura e simpatia no palco, enquanto a pressão da vida de repórter continuaria em minutos, rumo à cobertura do show do Mombojó, em Santa Bárbara d’Oeste.